
Com desmotivos demais pensei que o melhor seria começar com alguma congratulação aniversarial. Nesses últimos dias aí os famosos eventos da Praça da Paz Celestial completaram vinte anos. Mas vinte anos do que?
A China bloqueou até mesmo twitters, facebooks e blogs para que ninguém possa ver ou falar sobre esses 20 anos. Mas precisa? É, agora sob o horizonte de duas décadas, um fato tão marcante assim? Pegamos como eventos marcantes coisas que nos lembram de tempos piores ou que nos servem como lições de moral, saibamos para depois não fazermos, não é mesmo? Mas é assim? Aqueles talvez (já que os números oficiais são oficiosos) dois mil mortos, feridos e, muito mais do que isso, presos e perseguidos, conseguiram, de fato, ensinar alguma coisa?
Há alguns meses víamos embates parecidos no Tibet. Dentro da própria China o tank man, o corajoso e anônimo homem com sacolas que procurou impedir a passagem dos tanques, simplesmente não existe. Seu feito ensina-nos, ocidentais, mesmo passados 20 anos, que as coisas na China funcionam de uma maneira diferente e simplesmente isso. E, na verdade, essa é talvez a maior lição. À parte dos sistemas (capitalismo, comunismo, democracia, socialismo), que são retratações ambíguas de ideologias ainda mais conflitantes, a crueza é necessariamente a lição. E uma crueza externalizada, não apenas na violência, mas topograficamente também: afinal, esse tipo de coisa não acontece na França.
É uma estranha singularidade; uma simetria assustadora. Na Grécia, na França, vimos a multidão as ruas: carros queimando, a polícia fugindo. Em Tiananmen vimos as pessoas pacificamente sendo esmagadas pelo Estado, pela força policial (pra não dizer militar).
Comemorar o que, então? Lamentar o que?
Lamentar todos aqueles mortos, feridos e perseguidos? Quantos hoje - ou nessas duas últimas décadas - foram mortos, feridos e perseguidos por muito menos? Comemorar a conscientização de uma massa mais interessada na manutenção do fluxo de bens de consumo a preços módicos? Em Tiananmen, há 20 anos, sem saber, aquelas pessoas não queriam democracia, melhores condições de trabalho ou melhores direitos: eles queriam era salvar todo o mundo; eles, por suas condições econômicas e sociais e todo o resto por tentarem, de certo, impedir o afogamento contínuo em mercadoria made in Asia.
Alguém precisa me explicar a ética que permite esse arranjo, porque ela simplesmente me escapa.
A China bloqueou até mesmo twitters, facebooks e blogs para que ninguém possa ver ou falar sobre esses 20 anos. Mas precisa? É, agora sob o horizonte de duas décadas, um fato tão marcante assim? Pegamos como eventos marcantes coisas que nos lembram de tempos piores ou que nos servem como lições de moral, saibamos para depois não fazermos, não é mesmo? Mas é assim? Aqueles talvez (já que os números oficiais são oficiosos) dois mil mortos, feridos e, muito mais do que isso, presos e perseguidos, conseguiram, de fato, ensinar alguma coisa?
Há alguns meses víamos embates parecidos no Tibet. Dentro da própria China o tank man, o corajoso e anônimo homem com sacolas que procurou impedir a passagem dos tanques, simplesmente não existe. Seu feito ensina-nos, ocidentais, mesmo passados 20 anos, que as coisas na China funcionam de uma maneira diferente e simplesmente isso. E, na verdade, essa é talvez a maior lição. À parte dos sistemas (capitalismo, comunismo, democracia, socialismo), que são retratações ambíguas de ideologias ainda mais conflitantes, a crueza é necessariamente a lição. E uma crueza externalizada, não apenas na violência, mas topograficamente também: afinal, esse tipo de coisa não acontece na França.
É uma estranha singularidade; uma simetria assustadora. Na Grécia, na França, vimos a multidão as ruas: carros queimando, a polícia fugindo. Em Tiananmen vimos as pessoas pacificamente sendo esmagadas pelo Estado, pela força policial (pra não dizer militar).
Comemorar o que, então? Lamentar o que?
Lamentar todos aqueles mortos, feridos e perseguidos? Quantos hoje - ou nessas duas últimas décadas - foram mortos, feridos e perseguidos por muito menos? Comemorar a conscientização de uma massa mais interessada na manutenção do fluxo de bens de consumo a preços módicos? Em Tiananmen, há 20 anos, sem saber, aquelas pessoas não queriam democracia, melhores condições de trabalho ou melhores direitos: eles queriam era salvar todo o mundo; eles, por suas condições econômicas e sociais e todo o resto por tentarem, de certo, impedir o afogamento contínuo em mercadoria made in Asia.
Alguém precisa me explicar a ética que permite esse arranjo, porque ela simplesmente me escapa.

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